Estratificação e Mobilidade Social na França na Idade Moderna

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Conceito

Um sistema de estratificação social é constituído de uma hierarquia de estratos, dispostos verticalmente uns sobre os outros. Cada estrato é um conglomerado horizontal de famílias ou pessoas, que desempenham funções similares ou de mais ou menos a mesma importância em uma sociedade, e desfrutam aproximadamente da mesma quantidade de poder, prestigio e privilégio.

Na Idade Moderna

Na Idade Moderna, a sociedade francesa apresentava-se hierarquizada por meio do nascimento e dos negócios e profundamente conflituosa à época da Revolução Francesa do século XVIII. Mantinha a divisão em três Ordens ou Estados típicas do Antigo Regime – Clero ou Primeiro Estado, Nobreza ou Segundo Estado, e Povo ou Terceiro Estado – cada qual regendo-se por leis próprias (privilégios), com um Rei absoluto (ou seja, um Rei que detinha um poder supremo independente) no topo da hierarquia dos Estados.

Hierarquização da sociedade francesa antes da Revolução

No topo da pirâmide, estava o rei (independente/absolutista) e oClero, constituindo o Primeiro Estado, composto pelo Alto Clero, que representava 0,5% da população francesa, era identificado com a nobreza e negava reformas, e pelo Baixo Clero, identificado com o povo, e que as reclamava;

A nobreza ou Segundo Estado, que era representada por cerca de 350 mil indivíduos (1.5%), ocupava uma posição privilegiada na sociedade francesa. O seu segmento superior monopoliza os altos cargos da burocracia civil e militar, é dispensada do pagamento de impostos, usufrui de pensões mantidas pelo Estado e extrai a renda da terra por meio do trabalho dos camponeses na forma de pagamento em dinheiro, espécie e trabalho. O seu segmento inferior possui privilégios reduzidos a, basicamente, direitos feudais para extrair a renda da terra.

A dependência crescente de bens comerciais, a crise inflacionária e a progressiva afirmação de uma sociedade fundada na riqueza imobiliária, compromete interesses materiais da aristocracia, em especial dos seus segmentos inferiores, o que desencadeia um recalque psico-social em relação as demais classes sociais.

Na base, encontrava-se oTerceiro Estado, constituído por burgueses, camponeses sem terra e os “sans-culottes”,  uma camada heterogênea composta por artesãos, aprendizes e proletários, que tinham este nome graças às calças simples que usavam, diferentes dos tecidos caros utilizados pelos nobres.

Os impostos e contribuições para o Estado, o clero e a nobreza incidiam sobre o Terceiro Estado, uma vez que os dois últimos não só tinham isenção tributária como ainda usufruíam do tesouro real por meio de pensões e cargos públicos.

A burguesia subdivide-se em diversas frações de classe: a alta burguesia financeira, dividida em burgueses proprietários de cargos públicos adquiridos sob leilão para o arremate de impostos, enriquecidos com o absolutismo e com a crise financeira e fiscal do Estado. A alta burguesia comercial monopolista, enriquecida com a conquista e comércio coloniais. A burguesia industrial emergente, enriquecida com os investimentos do sector metalúrgico e têxtil, mas restringida em seus interesses pela carência de uma política industrial e pela carga de impostos. A burguesia rentista, enriquecida com o monopólio comercial, especulação financeira, atividades industriais, entre outras, mas que imobiliza seus capitais para viver de renda e cultivar padrões culturais aristocráticos. Por fim, a burguesia urbana vinculada as novas actividades urbanas formam o contingente de profissionais liberais (advogados, escritores, jornalistas, administradores, etc.), bem como os intelectuais orgânicos da classe burguesa, arquitetos do liberalismo político e económico. A pequena burguesia urbana é formada por proprietários de pequenas oficinas artesanais e pequenas lojas.

Do ponto de vista das condições materiais não se distinguia profundamente dos trabalhadores assalariados. A sua exposição aos impostos, inflação, bancos e controle de preços situa a pequena burguesia no limiar da sua sobrevivência econômica e determina a sua radicalidade política.

Os camponeses, aproximadamente 80% da população francesa do final do século XVIII,encontram-se vilipendiados por meio das obrigações feudais, dos impostos, do controle dos preços dos cereais, dos dízimos.

O campesinato se subdividia em: camponeses diaristas, expostos a baixos salários e em processo adiantado de proletarização, em camponeses pequenos proprietários, não raramente obrigados ao assalariamento temporário e arrendamento à meia como forma de obtenção do complemento de renda, e em camponeses proprietários abastados ou remediados, livres das pressões aristocráticas e do Estado e que se metamorfoseiam progressivamente em pequena burguesia agrária.

Por fim, as camadas populares urbanas, os segmentos mais explorados e oprimidos juntamente com os segmentos sociais inferiores do campesinato. As camadas populares urbanas se dividem em artesãos independente submetidos a um sistema de trabalho doméstico, e em trabalhadores assalariados das oficinas artesanais e das manufaturas.

 

Bibliografia

KURT B. Mayer. Classe e sociedade, Rio de Janeiro, edições Bloch. 1967;p. 136

HOBSBAWN, Eric. Escritos sobre História. São Paulo: Brasiliense, 1998.

IANNI, Octávio. O Ciclo da Revolução Burguesa. 2 ª edição, Petrópolis: Vozes, 1985.

KAYE, Harvey. Los Historiadores Britanicos. Madrid: Prensas Universitárias, 1983.

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