Desenvolvimento psíquico da criança segundo Vygotsky

0
74

Vida e Obra de L. S. Vygotsky

Lev Semenovich Vygotsky (ou Vygotsky) nasceu em 1896 na Bielo-Rússia, que depois (em 1917) ficou incorporada a União Soviética, e mais recentemente voltou a ser Bielo-Rússia.

Lev Semenovich Vygotsky

O objectivo de suas pesquisas iniciais foi a criação artística. A partir de 1924 que sua carreira mudou drasticamente, passando Vygotsky a dedicar-se a psicologia evolutiva, educação e psicopatologia. A partir daí ele concentrou-se nessa área e produziu obras em ritmo intenso até sua morte prematura em 1934, devido a tuberculose. Apesar de ter vivido pouco tempo, Vygotsky alcançou vastos conhecimentos não apenas na área da psicologia, mas também das ciências sociais, filosofia, linguística e literatura.

Foi pioneiro ao sugerir os mecanismos pelos quais a cultura torna-se parte da natureza de cada pessoa ao insistir que as funções psicológicas são um produto de actividade cerebral. Conseguiu explicar a transformação dos processos psicológicos elementares em processos complexos dentro da história.

Vygotsky enfatizava o processo histórico-social e o papel da linguagem no desenvolvimento do indivíduo. Sua questão central é a aquisição de conhecimentos pela interacção do sujeito com o meio. O sujeito é interactivo, pois adquire conhecimentos a partir de relações intra e interpessoais e de troca com o meio, a partir de um processo denominado mediação.

A Teoria de Vygotsky

Leontiev dizia que as crianças dão sentido as coisas principalmente através de suas acções com o ambiente, Vygotsky destacou o valor da cultura e o contexto social, que acompanha o crescimento da criança, servindo de guia e ajudando no processo de aprendizagem. Vygotsky partia da ideia que a criança tem necessidade de actuar de maneira eficaz e com independência e de ter a capacidade para desenvolver um estado mental de funcionamento superior quando interage com a cultura.

A criança tem um papel activo no processo de aprendizagem, entretanto não actua sozinha. Aprende a pensar criando, sozinha ou com a ajuda de alguém, e interiorizando progressivamente versões mais adequadas das ferramentas “intelectuais” que lhe apresentam e lhe ensinam activamente os adultos a sua volta.

As interacções que favorecem o desenvolvimento incluem a ajuda activa, a participação guiada ou a construção de pontes de um adulto ou alguém com mais experiência. A pessoa mais experiente pode dar conselhos ou pistas, servir de modelo, fazer perguntas, ensinar estratégias, para que a criança possa fazer aquilo que inicialmente não saberia fazer sozinho. Para que a promoção do desenvolvimento das acções auto-reguladas e independentes da criança sejam efectivas, é preciso que a ajuda que se ofereça esteja dentro da Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), uma região psicológica hipotética que representa a diferença entre as coisas que a criança pode sozinha e as coisas para as quais necessita ajuda. Isto provavelmente pode ser diferente em função do sexo, das características da escola, etc.

Um destaque importante nas ideias de Vygotsky é dado a linguagem, que é fundamental para o desenvolvimento cognitivo, demonstrando que as crianças dispõem de palavras e símbolos, as crianças são capazes de construir conceitos muito mais rapidamente. Acreditava que o pensamento e a linguagem convergiam em conceitos úteis que ajudavam o pensamento.

Níveis de desenvolvimento da teoria de Vygotsky

1 – Nível de desenvolvimento real – Nível de desenvolvimento real é determinado pela capacidade de resolver um problema sem ajuda, ou, é aquele que já foi consolidado pelo indivíduo, de forma torna-lo capaz de resolver situações utilizando seu conhecimento de forma autónoma. Esse nível é dinâmico aumenta dialecticamente com os movimentos do processo de aprendizagem.

2 – Nível de desenvolvimento potencial – é determinado através de resolução de um problema sob orientação de um adulto ou em colaboração com outro companheiro, isto é, é a série de informações que a pessoa tem a potencialidade de aprender mas ainda não completou o processo, conhecimento fora de seu alcance actual, mas potencialmente atingíveis.

Zona de Desenvolvimento Proximal

O conceito de ZDP é talvez o conceito mais original e de maior repercussão, em termos educacionais, da teoria de Vygotsky. Trata-se de uma espécie de desnível intelectual avançado dentro do qual uma criança, com o auxílio directo ou indirecto de um adulto, pode desempenhar tarefas que ela, sozinha, não faria, por estarem acima do seu nível de desenvolvimento.

O conceito de Vygotsky sobre a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) tem, primeiramente, um alcance teórico. Na concepção sociocultural do desenvolvimento, não se pode considerar a criança como um ser isolado de seu meio sociocultural. Não se pode analisar o desenvolvimento da criança nem avaliar suas aptidões, nem sua educação, se omitirmos seus vínculos sociais. O conceito de ZDP ilustra precisamente esse ponto de vista.

Numa visão dialéctica das relações entre aprendizagem e desenvolvimento, Vygotsky assinala que este último seria mais produtivo se a criança fosse submetida a novas aprendizagens precisamente na ZDP. Nesta zona, e em colaboração com o adulto, a criança poderia adquirir com maior facilidade o que seria incapaz de conseguir se limitar-se a suas próprias forças.

São muitas as possibilidades de ajuda que um adulto pode oferecer na ZDP, destacando-se a imitação de atitudes, os exemplos apresentados a criança, as perguntas de carácter maiêutico (método socrático onde o mestre, mediante perguntas, faz com que o discípulo descubra noções que estavam latentes nele), o efeito da vigilância por parte do adulto e também, acima de tudo, a colaboração em actividades compartilhadas como factor construtor do desenvolvimento.

Processo de Mediação segundo Vygotsky

O ser humano não tem acesso directo aos objectos. É através da mediação e do processo de internalização que ele consegue adquirir conhecimento e desenvolver-se, portanto, Vygotsky, enfatizava o processo histórico-social e o papel da linguagem no desenvolvimento do indivíduo. Sua questão central é a aquisição de conhecimentos pela interacção do sujeito com o meio. Para o teórico, o sujeito é interactivo, pois adquire conhecimentos a partir de relações intra e interpessoais e de troca com o meio, a partir de um processo denominado mediação.

O teórico pretendia uma abordagem que buscasse a síntese do homem como ser biológico, histórico e social. Ele sempre considerou o homem inserido na sociedade e, sendo assim, sua abordagem sempre foi orientada para os processos de desenvolvimento do ser humano com ênfase da dimensão sócio histórica e na interação do homem com o outro no espaço social. Sua abordagem sócio-interacionista buscava caracterizar os aspetos tipicamente humanos do comportamento e elaborar hipóteses de como as características humanas se formam ao longo da história do indivíduo.

As teorias pedagógicas de Vygotsky

A implicação pedagógica mais relevante deste conceito reside na forma como é vista a relação entre o aprendizado e o desenvolvimento. Ao contrário de outras teorias pedagógicas, como a piagetiana, que sugerem a necessidade de o ensino ajustar-se a estruturas mentais já estabelecidas, para Vygotsky, o aprendizado orientado para níveis de desenvolvimento que já foram atingidos é ineficaz do ponto de vista do desenvolvimento global da criança.

Ele não se dirige para um novo estágio do processo de desenvolvimento, mas, ao invés disso, vai a reboque desse processo. Assim, a noção de zona de desenvolvimento proximal capacita-nos a propor uma nova fórmula, a de que o “bom aprendizado” é somente aquele que se adianta ao desenvolvimento.

É destacada, portanto, a importância da figura professor como identificação/modelo e como elemento chave nas interacções sociais do estudante. Os sistemas de signos, a linguagem, os diagramas que o professor utiliza têm um papel relevante na psicologia vygotskyana, pois a aprendizagem depende da riqueza do sistema de signos transmitido e como são utilizados os instrumentos. O objectivo geral da educação, na perspectiva vygotskyana, seria o desenvolvimento da consciência construída culturalmente.

Vygotsky participou activamente numa série de actividades pedagógicas. Foi educador e comenta-se que era óptimo professor. Fez parte de alguns órgãos governamentais na área de educação. Para ele, o problema da relação entre o desenvolvimento e a aprendizagem constitui antes de tudo um problema teórico. Porém, como sua teoria, a educação não era de modo algum a parte do desenvolvimento e que este teria lugar no meio sócio-cultural real.

Para Vygotsky a educação não se reduz a aquisição de um conjunto de informações, mas constitui uma das fontes do desenvolvimento, e a educação de define como o desenvolvimento artificial da criança. A essência da educação consistiria em garantir o desenvolvimento proporcionando a criança instrumentos, técnicas interiores e operações intelectuais.

Vygotsky atribuiu a grande importância aos conteúdos dos programas educacionais, porém enfatizava os aspectos estruturais e instrumentais desses conteúdos. Infelizmente ele não aprofundou muito o desenvolvimento dessas ideias.

A existência da escola implica numa estruturação do tempo e do espaço e está baseada num sistema de relações sociais (entre alunos e professores, entre alunos e alunos, entre o estabelecimento de ensino e o meio ambiente, etc.). Os efeitos da escolarização são o resultado desse “meio escolar”.

Ele criticava a escola, pois nem sempre ensina sistemas de conhecimento, mas frequentemente, oprime os alunos com factos isolados e carentes de sentido. Os conteúdos escolares não carregam em si mesmos os instrumentos e as técnicas intelectuais e, muito frequentemente, não existem na escola interacções sociais capazes de construir os diversos saberes.

Bibliografia

LEONTIEV, A. N. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Livros Horizonte, 1978.
LEONTIEV, A. N. Os princípios psicológicos da brincadeira pré-escolar. In: VIGOTSKII, L. S.; LURIA, A. R.; LEONTIEV, A. N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. 10.        ed. São Paulo: Ícone, 2006.LEONTIEV, A. N. Uma contribuição à teoria do desenvolvimento da psique infantil. In: VIGOTSKII, L. S.; LURIA, A. R.; LEONTIEV, A. N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. 10. ed. São Paulo: Ícone, 2006.
OSTERMANN Fernanda &CAVALCANTI Cláudio José de Holanda. Teorias de Aprendizagem, Rio de Janeiro, 2010.PIAGET, J. A formação do símbolo na criança, imitação, jogo, sonho, imagem e representação. de jogo: São Paulo: Zahar, 1971.
PRASS, Alberto Ricardo. Teorias de Aprendizagem.2012.VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente. RIO DE JANEIRO: MARTINS FONTES, 1996

Cerca
Categorie
Leggi tutto
Perguntas
A penetração mercantil portuguesa em Moçambique no séc. XV foi antecedida por confrontações militares com
A penetração mercantil portuguesa em Moçambique no séc. XV foi...
By FiloSchool Lda 2023-12-08 09:27:42 0 46
História
História de Moçambique antes e depois da Independência
Quando se fala da historiografia de Moçambique refere se a obras escritas sobre...
By Daniel Ngovene 2022-07-08 11:35:47 0 67
Geografia
Ambiente bioclimático: Meteorologia, Evolução do conhecimento da Atmosfera
 Ambiente bioclimático O conceito de ambiente bioclimático define a...
By Daniel Ngovene 2022-06-19 22:31:19 0 38
Perguntas
As Placas Tectônicas no Limite Conservativo passam uma ao lado da outra sem gerar ou destruir litosfera.
As Placas Tectônicas no Limite Conservativo passam uma ao lado da outra sem gerar ou...
By FiloSchool Lda 2023-11-03 14:27:28 0 65
Perguntas
Na organização político-administrativa do Estado de Mwenemutapa, os chefes provinciais eram
Na organização político-administrativa do Estado de Mwenemutapa, os chefes...
By FiloSchool Lda 2023-12-08 10:09:59 0 50