Se o passado não tivesse asas, (Resumo) – Pepetela

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A escrita de Pepetela evoca serenidade, suavidade, minutos passados em contemplação. Se o passado não tivesse asas é apenas a segunda obra que leio deste autor angolano, mas tal como havia acontecido com O tímido e as mulheres voltei a embalar com a cadência melódica e algo monocórdica de mais uma história centrada em Luanda.

A narrativa salta no tempo entre duas protagonistas carismáticas e determinadas – Himba é uma menina que vê a sua vida sofrer uma mudança drástica quando a sua família é vítima de um ataque de guerrilhas do qual ela é a única sobrevivente.

Consegue, com a ajuda de soldados, terminar a viagem que o seu pai havia planeado para fugirem à guerra e chega à capital do país apenas com a roupa que traz vestida e na bagagem um instinto de sobrevivência que a levará a bater a algumas portas que se lhe fecham na cara e a embrulhar-se de coragem para enfrentar uma nova vida, uma vida de rua, de fome, de frio e de dor.

Dezassete anos mais tarde, travamos conhecimento com Sofia, uma mulher em plena ascensão económica, cujos dias são passados de casa para o restaurante do qual é sócia. Das restantes facetas da sua existência quase nada sabemos, apenas que nutre uma afeição muito forte pelo seu irmão mais novo, com quem ainda vive.

À medida que me fui adentrando na narrativa senti que estava a penetrar territórios e acontecimentos desconhecidos e ao mesmo tempo que estava a voltar a uma casa em que já havia sido muito bem recebida. Embalei-me então nesse ambiente familiar e durante uma semana deambulei com Himba pelas praias e outras zonas da ilha de Luanda, condoí-me do sofrimento pelo qual nenhuma criança deve passar, comprovei, uma vez mais, o quanto Angola é um país de contraste, de riquezas que escorrem dos bolsos de uns e nunca alcançam os bolsos de outros e aqueci estes últimos dias de temperaturas geladas com personagens verdadeiramente bondosas como “a senhora boa das trancinhas”.

Foi assim uma leitura quentinha, serena, sem muitos sobressaltos, com uma realidade dura, dorida, mas que chega até nós pela mão de um autor que sabe manejá-la, filtrá-la através de um estilo raiado de uma crueza suave e ao mesmo tempo assertiva. Foi um regresso saboroso ao mundo de Pepetela, com personagens cativantes, que vão crescendo e amadurecendo ao longo da narrativa, moldadas pelo contexto em que vão vivendo. Gostei particularmente de Himba enquanto criança, da sua introspeção, da sua precocidade e encantei-me com Kassule, com a sua determinação, a sua ligeireza e a sua integridade nunca beliscada por todas as convulsões que assolaram a sua vida.

Resumindo, Se o passado não tivesse asas não desiludiu. Tão-pouco deslumbrou, mas fez-me recordar outras histórias, como a de Capitães de Areia, de Jorge Amado, e aqueceu os meus momentos de leitura com os ares quentes e tumultuosos do dia-a-dia recente de um país que ainda está a tentar afirmar-se e a tentar encontrar o seu lugar numa amálgama de riquezas incalculáveis e consequentes lutas corruptas e desiguais.

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