A Confissão da Leoa [Resumo, Mia Couto]

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Primeiramente, a minha confissão: Li esse livro ao mesmo tempo em que lia o volume de ensaio, E se Obama fosse Africano?, o que influenciou por demais o meu olhar sobre esse romance. Portanto, não me julguem pela exposição bastante direcionada e explicita das minhas opiniões. Impregnado por esses questionamentos que o próprio Mia faz, nos ensaios críticos, sobre a importância da literatura como ferramenta e arma de atuação no mundo; e do papel do escritor, como um revelador das fragilidades e deficiências de nossa precária realidade e existência, e um suscitador de mudanças, apresento a Confissão da Leoa.

A confissão… é na verdade uma denúncia. Desde as primeiras páginas do romance, me ficaram claros os caminhos de leitura pelos quais tinha que seguir. A Confissão de Leoa é um livro empenhado na explicitação de uma fragilidade social moçambicana, mas não estranha ao Brasil ou ao restante do mundo. E por isso mesmo o li, e assim recomendo que seja ele lido, sob a ótica da discussão das relações de poder, e das questões de gênero. Não quero, no entanto, dizer, com isso, de que sendo um livro de denúncia social, o romance não se apresente primordialmente como objeto artístico e literário.

Com uma interessante estrutura narrativa bipartida, a história é contada sob a ótica de dois personagens. O caçador Arcanjo Baleiro, contratado para por fim aos ataques de leões que assolam a vila de Kulumani; e da moradora e habitante da região, Mariamar, irmã da última vítima. A diferença do olhar masculino (de fora da situação) e feminino (de dentro da vivência) foram meticulosamente pensados e estruturados para vinculação da confissão com a denúncia.

A estranha ambivalência entre realidade e ficção que se sente em muitos momentos da prosa “miacoutiana” (Não sei se o termo vai pegar, ou se já foi utilizado, mas levando em consideração o criador de neologismo que Mia é, passarei a utilizá-lo), se acentua em A confissão da Leoa; e acentua-se pela adoção consciente de alguns elementos estruturais, como por exemplo, a auto-referenciação de Mia a sua própria figura social, identificada na figura do personagem também escritor, Gustavo Regalo, e na adoção de prefácio falseado (ou no mínimo de caráter duvidoso).

Não quero falar muito sobre a narrativa desse romance, porque me conhecendo justamento como alguém, sem papas na língua que, muitas vezes revela fatos primordiais que deveriam ser mantidos em segredo até o momento da revelação da própria escrita, direi apenas que a narrativa bipartida, por momentos se confundirão e se complementarão (espacial-temporalmente), como um proibido ato de consumação carnal.

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