Níveis de conhecimento

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Níveis de conhecimento

A existência humana caracterizou-se sempre por um querer saber sobre a realidade que circunda o Homem. As principais respostas a tal inquietação foram no princípio mitológicas; depois seguiram-se as respostas dos filósofos chamados naturalistas; como terceira tentativa, apareceram os filósofos da Idade Média, que deram respostas teológicas; finalmente, apareceram os que, descontentes com as respostas teológicas, enveredaram os seus estudos exclusivamente pelo campo da razão, ou seja, o campo científico.

Qual é a diferença existente entre estas respostas? É o que veremos em seguida.

As respostas a tal inquietação foram sempre dadas de diferentes maneiras a diferentes níveis.

Em seguida, vamos analisar a compreensão de cada nível do conhecimento, começando pelo conhecimento do senso comum, passando para o científico e terminando com o nível de conhecimento filosófico.

Senso comum

O senso comum, no sentido habitual desta expressão, é a faculdade do espírito, um instrumento de julgar; é, objectivamente, um conjunto de opiniões recebidas, uma maneira comum de sentir e agir e não implica qualquer ideia ou juízo teórico.

É um conjunto de ideias, costumes e maneiras de pensar que o Homem tem na sua Vida prática e diária. É constante, comum e universal.

 

É a razão no seu estado bruto, sem ciência nem filosofia. É a razão mais simples, sem desenvolvimento ou aperfeiçoamento. Este é o primeiro nível de conhecimento.

São características deste nível de conhecimento:

  • Imediato e directo– parte de uma apropriação imediata do real; por outras palavras, a realidade é tida ou tomada tal como ela se apresenta diante do sujeito.
  • Subjectivo –baseado em interpretações objectivas do real a partir dos esquemas culturais do sujeito; isto é, a realidade é encarada de acordo com a experiência do sujeito.
  • Diverso e heterogêneo– conhecimento não organizado, construído a partir da captação espontânea da multiplicidade do real.
  • Dogmático/não critico– baseia-se em esquemas fechados da interpretação da realidade e apresenta uma tendência para se cristalizar em sistemas de crenças.

 

Para Gaston Bachelard (1884-1962), a opinião é um conhecimento subjectivo, não fidedigno. A ciência opõe-se opinião porque esta não pensa, nunca tem razão; a opinião traduz necessidades em conhecimentos. Ela designa os objectos pela sua utilidade mas não os conhece. É necessário destruir a opinião para se chegar ao conhecimento, ao saber. É o primeiro obstáculo a ultrapassar.

Karl R. Popper, por seu lado, valorizou o conhecimento do senso comum nos seguintes termos.

Conhecimento científico

O nível científico dá-nos um conhecimento da Natureza, mas já interpretado pelo cientista, construído e reproduzido no laboratório. É um conhecimento racional.

A ciência é um conhecimento objectivo, que estabelece entre os fenómenos relações universais e necessárias, autorizando a previsão de resultados que somos capazes de isolar pela observação da causa ou de dominar experimentalmente.

A ciência estuda fenómenos (factos definidos e classificados pelo Homem de ciência). A linguagem da ciência é a matemática, embora nem todo o real seja susceptível de ser medido; quanto mais complexa é a realidade, menos matematizável se apresenta.

 

Embora a quantificação dos fenómenos seja o ideal a atingir pela ciência, há limites de quantificação. Exemplos: Emoções e reacções instintivas não podem ser quantificáveis.

Sob quase todos os aspectos, podemos dizer que o conhecimento científico se opõe, ponto por ponto, às características do senso comum:

  • É objectivo, isto é, procura as estruturas universais e necessárias das coisas investigadas. 
  • É quantitativo, isto é, busca medidas, padrões, critérios de comparação e avaliação para coisas que parecem ser diferentes. Assim, por exemplo, as diferenças de cor são explicadas por diferenças de um mesmo padrão ou critério de medida, o comprimento das ondas luminosas; as diferenças de intensidade dos sons, pelo comprimento das ondas sonoras; as diferenças de tamanho, pelas diferenças de perspectiva e de ângulos de visão, etc. 
  • É homogéneo, isto é, busca as leis gerais de funcionamento dos fenómenos, que são as mesmas para factos que nos parecem diferentes. Por exemplo, a lei universal da gravitação demonstra que a queda de uma pedra e a flutuação de uma pluma obedecem à mesma lei de atracção e repulsão no interior do campo gravitacional; a «estrela da manhã» e a «estrela da tarde» são o mesmo planeta, Vénus, visto em posições diferentes em relação ao Sol, em decorrência do movimento da Terra; sonhar com água e com uma escada é ter o mesmo tipo de sonho, como seja, a realização dos desejos sexuais reprimidos, etc. 
  • É generalizador, pois reúne individualidades, percebidas como diferentes, sob as mesmas leis, os mesmos padrões ou critérios de medida, mostrando que possuem a mesma estrutura. Assim, por exemplo, a química mostra que a enorme variedade de corpos se reduz a um numero limitado de corpos simples que se combinam de maneiras variadas, de modo que o número de elementos é infinitamente menor do que a variedade empírica dos compostos. 
  • Só estabelece relações causais depois de investigar a natureza ou estrutura do facto estudado e as suas relações com outros semelhantes ou diferentes. Assim, por exemplo, um corpo não cai porque é pesado, mas o peso de um corpo depende do campo gravitacional onde se encontra — é por isso que, nas naves espaciais, onde a gravidade é igual a zero, todos os corpos flutuam, independentemente do peso ou do tamanho; um corpo não tem uma certa cor porque é colorido, mas porque, dependendo de sua composição química e física, reflecte a luz de uma determinada maneira, etc. 
  • Surpreende-se com a regularidade, a constância, a frequência, a repetição e a diferença das coisas e procura mostrar que o maravilhoso, o extraordinário ou o «milagroso» são casos particulares do que é regular, normal, frequente. Um eclipse, um terramoto, um furacão, embora excepcionais, obedecem às leis da física. Procura, assim, apresentar explicações racionais, claras, simples e verdadeiras para os factos, opondo-se ao espectacular, ao mágico e ao fantástico. 
  • Distingue-se da magia. A magia admite uma participação ou simpatia secreta entre coisas diferentes, que agem umas sobre as outras por meio de qualidades ocultas e considera o psiquismo humano uma força capaz de ligar-se a psiquismos superiores (planetários, astrais, angélicos, demoníacos) para provocar efeitos inesperados nas coisas e nas pessoas. A atitude científica, ao contrário, opera um desencantamento ou desenfeitiçamento do mundo, mostrando que nele não agem forças secretas, mas causas e relações racionais que podem ser conhecidas e que tais conhecimentos podem ser transmitidos a todos. Afirma que, pelo conhecimento, o Homem pode libertar-se do medo e das superstições, deixando de projetá-los no mundo e nos outros. 
  • Procura renovar-se e modificar-se continuamente, evitando a transformação das teorias em doutrinas, e destas em preconceitos sociais. O facto científico resulta de um trabalho paciente e lento de investigação e de pesquisa racional, aberto a mudanças, não sendo nem um mistério incompreensível nem uma doutrina geral sobre o mundo.

Os factos ou objectos científicos não são dados empíricos espontâneos da nossa experiência quotidiana, mas são construídos pelo trabalho da investigação científica. Este é um conjunto de actividades intelectuais, experimentais e técnicas, realizadas com base em métodos que permitem e garantem:

  • Separar os elementos subjectivos e objectivos de um fenómeno.
  • Construir o fenómeno como um objecto do conhecimento, controlável, verificável, interpretável e capaz de ser retificado e corrigido por novas elaborações.
  • Demonstrar e provar os resultados obtidos durante a investigação, graças ao rigor das relações definidas entre os factos estudados; a demonstração deve ser feita não só para verificar a validade dos resultados obtidos, mas também para prever racionalmente novos factos como efeitos dos já estudados.
  • Relacionar com outros factos um facto isolado, integrando-o numa explicação racional unificada, pois somente essa integração transforma o fenómeno em objecto científico, isto é, em facto explicado por uma teoria.
  • Formular uma teoria geral sobre o conjunto dos fenómenos observados e dos factos investigados, isto é, formular um conjunto sistemático de conceitos que expliquem e interpretem as causas e os efeitos, as relações de dependência, identidade e diferença entre todos os objectos que constituem o campo investigado.
  • Delimitar ou definir os factos a investigar, separando-os de outros semelhantes ou diferentes; estabelecer os procedimentos metodológicos para observação, experimentação e verificação dos factos; construir instrumentos técnicos e condições de laboratório especificas para a pesquisa; elaborar um conjunto sistemático de conceitos que formem a teoria geral dos fenómenos estudados, que controlem e guiem o andamento da pesquisa, além de ampliá-la com novas investigações' e permitam a previsão de factos novos a partir dos já conhecidos: esses são os pré-requisitos para a constituição de uma ciência e as exigências da própria ciência.

Conhecimento filosófico

O conhecimento filosófico tem por origem a capacidade de reflexão do Homem e é um instrumento exclusivo do raciocínio. Como a ciência não é suficiente para explicar o sentido geral do universo, o Homem tenta essa explicação através da Filosofia. Filosofando, ele ultrapassa os limites da Ciência - delimitado pela necessidade da comprovação concreta - para compreender ou interpretar a realidade na sua totalidade. Mediante a Filosofia estabelecemos uma concepção geral do mundo.

 

Tendo o Homem como tema permanente das suas considerações, o filosofar pressupõe a existência de um dado determinado sobre o qual reflectir, dai apoia-se nas ciências. No entanto, a sua aspiração ultrapassa o dado científico, já que a essência do conhecimento filosófico é a busca do «saber» e não a sua posse. Tratando de compreender a realidade dos problemas mais gerais do Homem e a sua presença no universo, a Filosofia interroga o próprio saber e transforma-o em problema. É, sobretudo, especulativa, no sentido de que as suas conclusões carecem de prova material da realidade.

 

Embora a concepção filosófica não ofereça soluções definitivas para numerosas questões formuladas pela mente, ela traduz em ideologia. E, como tal, influi directamente na Vida concreta do ser humano, orientando a sua actividade prática e intelectual.

Importância, limites e perigos do conhecimento científico

Importância do conhecimento científico

À medida que as descobertas científicas avançam, a Vida do Homem também muda de ritmo: muda a mentalidade, a maneira de ser, de conceber a realidade e de se relacionar com o mundo exterior. Tais sucessos científicos levaram alguns filósofos a ganhar maior confiança nas ciências físico-matemáticas, depreciando todo o tipo de saber que não é empírico.

Auguste Comte (1798-1857), inspirado pelo ambiente do século XVII, fez um estudo geral do evoluir da história. Com base nos seus estudos, ele sentiu-se autorizado a formular a chamada lei dos três estádios, segundo a qual, a humanidade, assim como o psiquismo humano, atravessa três estádios, a saber: o teológico, o metafisico e o positivo.

 

O estádio teológico corresponde à infância, o metafisico à juventude e o positivo sua maturidade. No estádio positivo não se admite a justificação teológica, nem a filosófica da realidade, mas a científica. O científico está ligado ao empírico e ao prático.

 

 
Fig.15: Augusto Comte (1798-1857)

 

Não nos admiraremos, então, se os estudos de realidades não empíricas forem negligenciados. O único conhecimento é o positivo. Este critério de cientificidade deita por terra todo o discurso relativo à religião e aos sentimentos que são constitutivos do Homem. A ciência, então, mostra-se como aquela que vem emancipar o Homem do obscurantismo, da tradição, da cultura, etc., tornando-o mais racional, procurando, cada vez mais, o seu bem-estar.

Limites e perigos do conhecimento científico

Desde a segunda metade do século XVII que a cultura ocidental assiste, fascinada, aos primeiros passos dados pela ciência e aos rápidos e francos progressos que esta realiza. São tão surpreendentes as suas realizações que o Homem se convenceu de que, finalmente, tinha nas suas mãos o instrumento necessário sua transformação em «senhor do Universo». Doravante, a ciência permitir-lhe-á o domínio não só da Natureza como também do Homem.

Confiante no poder da ciência, acreditou que ela poderia desenvolver-se desligada de qualquer outro poder e que ela só poderia trazer benefícios para a humanidade. O bem-estar, a melhoria das condições de Vida, a cura de todas as doenças, enfim, a felicidade seria a finalidade da ciência.

 

«Que tipo de relação é a do Homem com as máquinas que ele criou e com a produção ligada a estas máquinas? Se, por um lado, se pode entender como progresso a construção desta tecnologia, não será que esta é também um factor negativo, destruidor das relações humanas ou das relações entre a sociedade e a Natureza?»

 

 
Fig.17: Clonagem


Estas são as questões que podem ajudar-nos a reflectir sobre as consequências que a ciência provoca na humanidade. Com efeito, as limitações da ciência em responder aos problemas concretos do Homem fez com que a confiança outrora dada à ciência se questionasse. Retomando a classificação tripartida da história humana proposta pelo positivismo, observamos que o seu erro fundamental foi hipertrofiar o método das ciências experimentais, desvalorizando todo o tipo de saber diferente do proposto pelo seu método.

 

De facto, nos últimos decénios do século XIX e nos princípios do século XX estas tendência aventura, principalmente por dois motivos:

  1. a)O aprofundamento da pesquisa científica, que se tornava cada vez mais consciente dos próprios limites.
  2. b)A persistência de questões éticas e metafisicas, mesmo depois de o positivismo tentar sufocá-las como expressões da imaturidade do Homem, e a consciência de que somente uma visão espiritualista pode responder de forma adequada a tais questões.

 

Wolhelm Dilthey (1833-1911), um dos maiores representantes da nova corrente filosófica oposta ao positivismo, observava já que o método positivo das ciências experimentais satisfazia apenas as exigências do estudo dos fenómenos naturais, sendo absolutamente inadequado para o estudo e compreensão dos fenómenos culturais ou espirituais.

 

Bibliografia

CHAMBISSE, Ernesto Daniel; COSSA, José Francisco. Fil11 - Filosofia 11ª Classe. 2ª Edição. Texto Editores, Maputo, 2017.

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