ESTADOS MARAVE, AJAUAS OU YAO E O IMPÉRIO DOS MWENEMUTAPA
Posté 2021-09-17 10:57:01
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ESTADOS MARAVE
Os Estados Marave formaram-se com a chegada a sul do Malawi, a partir de camadas sucessivas de emigrantes oriundos da região de Luba do Congo, liderados pelo clã Caronga-Phiri, entre 1200 à 1400, situados entre os rios Chire e Luangua, a norte do rio Zambeze. Conflitos dinásticos levaram a segmentação do clã original, dando origem a novas linhagens que posteriormente se estabeleceram a oeste, sul e sudeste do território ocupado pelos Caronga. Assim, Undi irmão de Caronga moveu-se para oeste e estabeleceu a hegemonia da sua linhagem sobe os povos de língua Cheua e Nsenga, abrangendo a norte da província de Tete. Por outro lado, Kaphwiti e Lundu lograram dominar as populações do vale do Chire.
Diferentemente dos Mwenemutapas a sul do Zambeze, os Maraves a norte dominaram o seu território através da absorção e adaptação da ideologia local, acompanhado com o casamento com mulheres nativas, promovendo o controlo sobre a esfera ideológica.
Limites dos Estados Marave
Norte: Malawi; Sul: rio Zambeze; Este: Rio Luangua; Oeste: Rio Chire.
O Estado Marave passou a ter como estados satélites: Undi, Lundu, Kaphwiti e Biwi. Todos estes estados o aparelho do Estado se confundia com a família reinante, eram governados por membros oriundos do clã original Phiri. O termo Marave designa várias formações etnolinguísticas.
Principais actividades económicas
A principal actividade económica dos povos Maraves era a agricultura e o comércio a longa distância. Pode-se aceitar que a Mapira era o cereal mais cultivado entre o Chire e Luanga. Cultivava-se o milho, mexoeira, amendoim e leguminosas. A agricultura era itinerante sobre queimadas, sendo a enxada de cabo curto como único instrumento utilizado. No estado Marave, para a produção agrícola havia uma forma de cooperação entre os camponeses designada por Dima, que previa entre outros aspectos garantir maior produção e produtividade. É certo que os Maraves produziam e comercializavam as enxadas da metalurgia. Por outro lado, havia uma produção considerável de tecidos de algodão para troca, designadas por Machiras.
Um outro produto saído do território Marave era o Sal e há evidências de que ele era adquirido por mercadores Ajauas e Bisa. Tal como sucedia no império de Mwenemutapa e das linhagens satélites, as classes dominantes dependiam para a sua reprodução de duas fontes: Tributos diversos como o comércio do marfim, o qual representava para os soberanos Maraves o mesmo que o ouro para os soberanos Chona.
No caso do estado dos Undi, a classe dominante recebia tributos regulares e tributos rituais. Os súbditos eram obrigados a trabalhar regularmente nas terras dos chefes, a construir casas para a classe dominante e assegurar a manutenção da capital. Como tributos rituais, havia as primícias das colheitas e as taxas devidas ao facto de os chefes orientarem as cerimónias mágico religiosas. Ainda no Estado Undi, os súbditos eram obrigados a cultivar produtos para o interesse geral conhecidos por Munda ya Chiweta. Com o produto do trabalho dos súbditos o Undi sustentava visitantes.
Recebiam igualmente tributos de vassalagem que incluíam penas vermelhas de certos pássaros, marfim, peles de leão e de leopardo, partes comestíveis de outros animais, tributo de trânsito dos comerciantes designado por Mororo e primícias das colheitas.
Estrutura sócio-política e administrativa
O aparelho político do Estado Marave era complexo. Porém, tomemos o exemplo do Estado Undi, cujos territórios abrangiam a atual província de Tete.
- Undi: Chefe máximo do Estado
- Mambo: Chefe dos territórios conquistados
- Mwene Dziko: Chefe Territorial
- Mwene Mudzi ou Fumo: Chefe da aldeia
Todavia, há que salientar que cada chefe era servido por um conjunto de conselheiros os mbili, singular ambili. Havia igualmente um corpo de funcionários subalternos como mensageiros e guarda do chefe. No Estado Marave, todos os chefes estavam ligados por laços de parentesco. Os membros da aldeia, os Mwene Mudzi eram geralmente membros seniores das matri-linhagens locais, sendo o núcleo matrilinear básico designado por bele, formado pela mulher, por suas irmãs casadas e ou solteiras, filhos não casados, filhos das irmãs e por incorporação pelo marido da mulher e pelos maridos das filhas da mulher.
Papel das crenças mágico-religiosas
As crenças mágico-religiosas do Estado Marave eram destinadas a evocação das chuvas, a fertilidade das terras, ao controlo das cheias. Esses cultos eram dedicados a entidades supremas como era o culto do Muári ou Muáli, o culto de Chissumpi, que era a veneração de espíritos naturais e o culto de Makewana.
A penetração dos Caronga-Phiri não foi violenta de tipo militar. Foi no entanto seguida de absorção gradual dos cultos nativos. O gradual domínio dos territórios através da absorção e adaptação da ideologia local, foi acompanhado pela prática de casamentos com mulheres dos clãs nativos. Em alguns casos, o Undi casava com a irmã do chefe local, dando-lhe em troca uma das suas irmãs para ser esposa.
Assim, podemos concluir que enquanto a sul do Zambeze a ocupação territorial de Nhatsimba Mutota foi essencialmente de natureza militar, a norte do Zambeze a ocupação territorial dos Maraves se fez pela conquista da esfera ideológica expressa nos santuários e nos rituais. A aristocracia dominante Caronga era obrigada a casar-se com as mulheres saídas do clã Banda (clã originário da região ocupada pelos Caronga).
Decadência do Estado Marave
O declínio das rotas comerciais Marave que iam até à costa, substituídas desde fins do século XVI por duas rotas controladas pelos mercadores Ajauas pode ter constituído um dos factores que minou o poder das dinastias Phiri, juntamente com dissensões dinásticas e uma fragmentação de linhagem intensa.
Por outro lado a decadência dos Estados Marave, no século XVI foi intensificada pela penetração de mercadores no fim do século XVIII. Alguns deles acabaram casando-se com a filha de Undi reinante e começou a sua vida como prospector de Ouro, utilizando mulheres escravas. Há que ter ainda em conta a invasão dos Nguni provenientes do movimento Mfecane, um extenso movimento de migrações encetado na Zululândia devido as lutas violentas interlinhagens. Outro factor a ter em conta na decadência dos Estados Marave está certamente associado à penetração mercantil portuguesa no vale do Zambeze a partir de 1530 e ao bloqueio feito a penetração Swahili-Árabe. Podemos ter ainda como causa da decadência deste Estado, os conflitos no seio da classe dominante Marave pelo poder que acelerou a desintegração das linhagens dirigentes.
ESTADOS AJAUAS OU YAO
Os Ajauas constituíram comunidades matrilineares conhecidas por Mbumba cuja autoridade máxima era designada Asyene Mbumba. Antes das grandes mudanças económicas e políticas surgidas durante os séculos XVIII e XIX, com o comércio de marfim e escravos, pode-se afirmar com alguma segurança que a sociedade Ajaua era caracterizada por uma economia agrícola, cultivando cereais diversos.
Organização Sócio-económica
As linhagens matrilineares organizavam-se localmente na base de um grupo de irmãs, de suas filhas casadas e dos filhos solteiros, todos sob chefia de um irmão mais velho designado por Asyene Mbumba, que podemos traduzir por Guardião da linhagem. O Asyene Mbumba para o exercício do seu cargo era obrigado a mudar a sua residência e das suas mulheres para a aldeia do grupo sororal. Como a maior parte dos trabalhos agrícolas (sementeiras, sacha e colheitas) eram feitos pelas mulheres e filhos solteiros, os homens adultos dedicavam-se a caça e a pesca em grande escala.
Para além da agricultura, da caça e da pesca, os Ajauas desenvolveram o fabrico de instrumentos de ferro: enxadas, machados, armas. Com estes produtos, os Ajauas estabeleceram contatos comerciais com Quíloa, Zanzibar, Ibo e com Ilha de Moçambique. Nas viagens à costa do Índico, os Ajauas trocavam tabaco, artefatos de ferro, peles de animais e Marfim por sal, tecidos e missangas.
A partir de 1840/50, os grandes Estados Ajaua das dinastias Mataca, Mtalica, Makanjila e Jalasi, tinha no comércio de escravos o pilar da sua economia. As jovens escravas obtidas nas razias eram tornadas esposas dos homens livres.
O trabalho produtivo dos escravos (homens e mulheres) na agricultura e dos homens no artesanato aumentou consideravelmente o poder económico e político dos chefes e modificou o ordenamento habitacional do território Ajaua.
É nessa época que surgiram as grandes aglomerações habitacionais onde viviam agrupadas as esposas dos chefes. O primeiro soberano Mataca tinha 600 esposas dispersas por oito aldeias, das quais um terço vivia na capital, Mwembe.
A introdução maciça de armas de fogo e da pólvora contribuiu para a gigantesca empresa de caça ao homem e para afirmação do poder guerreiro e mercantil das dinastias Ajaua. A islamização da aristocracia Ajaua fortaleceu ainda mais o poder teocrático dos soberanos Mataca. Mtalica que passaram a ser designados e considerados por Xeicados.
IMPÉRIO DOS MWENEMUTAPA
Por volta de 1450, o Grande Zimbabwe foi abandonado pela maior parte dos seus habitantes. O Estado de Mwenemutapa é formado a partir de um movimento migratório do Grande Zimbabwe, dos povos Chona-caronga, para a região do vale do Zambeze, na sequência da invasão e da conquista por exércitos dirigidos por Nhatsimba Mutota, ocorrida por volta de 1440-1450. Desenvolveu-se entre, os rios Mazoe e Luia, o centro de um novo Estado chefiado pela dinastia dos Muenemutapa, que dominou e subordinou a população pré-existente. A capital do império era Dande.
O grosso dos efetivos do grupo invasor deu origem no vale do Zambeze a uma etnia denominada pelos povos locais por Macorecore. Constituíram exceção da subordinação os Tonga, matrilineares porque não falavam a língua Chona.
Limites do Estado Mwenemutapa
Norte – rio Zambeze; Sul – Rio Limpopo; Este – Oceano Índico; Oeste – deserto de Kalahari.
O núcleo central que a dinastia governava diretamente entre, os rios Mazoe e Luia, era circundado por uma cintura de Estados Vassalos cujas classes dominantes constituídas por parentes dos Mwenemutapas e opor estes a rebelar-se quando o poder central enfraquecia. Entre os Estados vassalos do Estado de Muenemutapa encontravam-se Sedanda, Quissanga, Quiteve, Manica, Bárrué e Maungwe. Os seus chefes pagavam tributo ao Mwenemutapa reinante e eram confirmados por este quando subiam ao poder.
Os Muenemutapas dominaram a sul do Zambeze até finais do século XVII, perdendo depois a sua posição em favor da dinastia dos Changamires, cujo papel no levante armado contra a penetração mercantil portuguesa.
Nos seus traços mais gerais, a sociedade Chona caracterizava-se pela coabitação no seu seio de dois níveis sócio-económicos distintos: de um lado a comunidade aldeã, designada por Musha ou Incube, relativamente autárquica e estruturada pelas relações de parentesco; do outro lado a aristocracia dominante (que se confundia com a família que reinava e esta com o Estado), que controlava o comércio a longa distância e dirigindo a vida das comunidades.
A comunidade aldeã
A actividade produtiva essencial das comunidades aldeãs Chona baseava-se na agricultura. Os principais cereais cultivados eram a Mapira, a mexoeira, o naxemim e o milho. Ao longo dos rios e sobretudo na zona costeira e solos aluviares, cultivava-se o arroz, usualmente para venda. O nível das forças produtivas ainda era baixo. Nos trabalhos agrícolas utilizavam a enxada de cabo curto e a agricultura praticava-se sobre queimadas. A pecuária, a pesca, a caça, bem como o artesanato surgiram como apêndices complementares da agricultura, submetendo-se aos imperativos do ciclo agrícola.
O trabalho nas minas aparecia como imposição do exterior (da aristocracia dominante ou de comerciantes estrangeiros), não fazendo parte integrante da actividade produtiva normal. Com o decorrer do tempo, a penetração árabo-persa e portuguesa trouxe novas necessidades (bens de prestígio), as quais voluntária ou coercivamente levavam a população das comunidades a praticar a mineração do ouro em escala considerável. O ouro localizava-se nas regiões como: Chidima, Dande, Butua e Manica
As Mushas que integravam no geral uma família no sentido lato ou um grupo de famílias com o mesmo antepassado, o muri, viviam num regime de autossubsistência e estavam fundamentalmente orientadas para a produção de valores de uso. Todas as relações entre os membros da sociedade Chona, ao nível das Mushas, eram fundadas no parentesco. Acima das Mushas, como entidade superior erguia-se a aristocracia dominante.
Aristocracia dominante
Na sociedade Chona, o Estado era personificado na pessoa do soberano, o Mambo, que devia desligar-se da sua origem terrena para conferir à realeza, um carácter sagrado. Tornava-se assim o representante supremo de todas as comunidades, o símbolo da unidade de interesses dessas comunidades. Para quebrar todas as ligações com a sua linhagem, e se tornar representante de toda a sociedade, indiferente às rivalidades familiares, o Mambo cometia no momento da sua entronização, o incesto com uma parente próxima, infringindo desse modo o mais absoluto interdito. Daí que a principal mulher do Monomotapa era a sua própria irmã.
A autoridade efetiva do Mambo processava-se através dos seus subordinados territoriais que integravam um complexo aparelho de Estado. Esquematicamente a estrutura político administrativa pode ser representada da seguinte maneira:
i) Mambo: chefe supremo.
ii) Mazarira, Inhahanca e Nambuiza: três principais esposas do soberano com importantes funções na administração.
iii) Nove altos funcionários: responsáveis pela defesa, comércio, cerimónias mágico-religiosas, relações exteriores, festas, etc.
iv) Fumos ou Encosses: chefes provinciais
v) Mukuru ou Mwenemusha: chefes das comunidades aldeãs ou das Mushas.
vi) As Mushas
O mambo possuía alguns funcionários subalternos: Mutumes (mensageiros) e os Infices (guarda pessoal do soberano – Mambo).
Há que notar aqui que elegia-se Fumo a quem tivesse maior riqueza material. Depois que ficara pobre, a comunidade destituía-o através de uma cerimónia pela qual lhe eram atribuídos certos símbolos de prestígio (um bordão e um chapéu de palha). O fumo deposto passava a pertencer ao grupo dos “grandes” por mérito. Salientar que semelhante controlo não operava ao nível dos Mambos, geralmente oriundos da aristocracia invasora descendente de Mutota, na qual a transmissão do poder se fazia por via hereditária.
Articulação entre a aristocracia dominante e as comunidades Mushas
A articulação entre a aristocracia dominante e as comunidades aldeãs encerrava relações de dominação/subordinação e exploração do homem pelo homem, materializadas pelas obrigações e direitos que cada uma das partes tinha para com a outra. As comunidades aldeãs (Mushas) sob direcção dos Mwenemushas, garantiam com o seu trabalho a manutenção e reprodução da aristocracia dominante e esta concorria para o equilíbrio e reprodução social de toda a sociedade Shona com o desenvolvimento de inúmeras actividades não diretamente produtivas.
Obrigações das Mushas
Prestar 7 dias de trabalho mensais nas machambas do Mambo; Construção de casas para os membros da classe dominante (ZUNDE); Mineração do ouro para alimentar o comércio a longa distância que garantia a importação de produtos para a sociedade Shona, os quais ascendiam a categoria de bens de prestígio (missangas, tecidos, louça, porcelana, vidros). Pagamento de imposto em primícias das colheitas (tributo simbólico) e uma parte da produção agrícola (regular); Entrega de marfim, peles de animais e penas de algumas aves; Entrega de materiais de construção de residências da Classe dominante, como pedras, estaca, palha, etc.
Obrigações da Classe dominante
Orientar as cerimónias da invocação da Chuva; Pedir aos Muzimos reais (espíritos dos antepassados reais) a fertilidade do solo, o sucesso das colheitas; Garantir a segurança das pessoas e dos seus bens; Assegurar a estabilidade política e militar no território; Servir de intermediário fiel entre os vivos e s mortos; Orientar as cerimónias mágico-religiosas contra as cheias, epidemias e outras calamidades.
Os mambos eram garantes da fecundidade da terra e depositários da ordem do território e constituíam os antídotos mais eficazes contra o caos. A sua morte significava a perda da estabilidade. Quando morria um Mwenemutapa e até a eleição do novo mambo, o poder era exercido por um personagem que usava o nome de Nevinga. Sem ser portador de qualquer atributo régio, era morto logo após a eleição de um mambo de direito.
A eleição do verdadeiro mambo, constituía motivo de festa porque se acreditava ter a ordem sido reposta com o importantíssimo papel de mambo vivo, que tamanha admiração e entusiasmo causa aos seus crédulos adoradores.
8. Papel das crenças mágico-religiosas ou aparato ideológico dos Mwenemutapa
As crenças mágico-religiosas sempre jogaram um papel muito importante para a manutenção do poder e da coesão social. Praticavam cultos dedicados aos espíritos dos antepassados. Existiam alguns termos que serviam para designar Deus: Mulungu, utilizado nas terras marítimas, ao longo do vale do Zambeze e a nordeste do planalto zimbabueano e Mwari a sul do planalto. Entre os Muzimu mais temidos eram os dos reis.
Esta prática regular as classes dominantes do estado dos Muenemutapas e dos estados satélites contactarem regularmente com os seus Muzimu através de especialistas médiuns designados por Pondoros ou Mondoros (leões). O Muenemutapa Matope, o segundo da dinastia declarou que o seu espírito era imortal, esse metamorfoseava num Leão, pelo que matar um Leão era considerado um crime imperdoável.
Os médiuns (Swikiros) estavam estreitamente associados ao poder político e especialmente às sucessões. Deviam conhecer profundamente a História genealógica e na sua maioria eram estrangeiros, para assegurar imparcialidade em caso de arbitragem nos conflitos sucessórios. Os Swikiros constituíam os suportes das classes dominantes e estas as executoras das ordens dos antepassados, mortos em vida e vivos na morte.
Todo esse aparato ideológico contribuía para assegurar a reprodução social Chona e das desigualdades sociais existentes. Porém, o poder dos Muenemutapas e dos mambos em geral, não advinha apenas das rendas e dos tributos que recebiam regularmente. O comércio a longa distância (ouro) era a outra fonte do poder dos mambos. A fixação portuguesa fez-se inicialmente no litoral, com a fundação da feitoria de Sofala em 1505 e na ilha de Moçambique em 1507. Esperavam através de Sofala, controlar as vias de escoamento do ouro e do marfim em pequena escala do interior.
Muito antes da chegada dos mercadores portugueses em Moçambique, os Swahili-Árabes se encontravam na região, controlando o ouro vindo do império de Muenemutapa através do rio Zambeze até aos portos de Quelimane e Angoche. A partir de 1530, os portugueses penetraram no vale do Zambeze fundando as feitorias de Sena e Tete em 1530 e a do Quelimane em 1544. Trata-se agora de não controlar as vias de escoamento do ouro, mas sim do próprio acesso as zonas produtoras do ouro, entrando em contradição com os Swahili-Árabes.
Na sua penetração, os portugueses utilizaram a religião cristã católica, organizando assim em 1561 uma expedição missionária a corte do Mwenemutapa reinante chefiada pelo padre Jesuíta Gonçalo da Silveira com o objectivo de converter a classe dominante à religião católica tendo conseguido baptizar o Mwenemutapa e a sua família com o nome de D. Sebastião. Para os portugueses ter o Muenemutapa e a sua família baptizados serviria de trampolim para a concretização dos seus planos:
Marginalizar os mercadores asiáticos; Influenciar as decisões políticas do imperador em seu benefício; Monopolizar o comércio do ouro; Promover manobras no sentido de se alargar o período que os camponeses dedicavam á produção de valores de troca (ouro) em detrimento da produção de valores de uso e consumo (agricultura).
O padre Gonçalo da Silveira é acusado de feiticeiro e é morto e como retaliação aos acontecimentos de 1561, os portugueses enviam uma expedição militar chefiada por Francisco Barreto em 1571 com o objectivo de conquistar as zonas produtoras do ouro e punir o imperador reinante. Devido a grande coesão no seio da classe dominante e as doenças tropicais explicam em grande medida a derrota que sofreram.
A primeira década do século XVII, marcou o início de uma nova era no estado dos Muenemutapas. A classe dominante encontrava-se envolvida em profundas contradições e lutas intra e interdinásticas. Gatsi-Lucere, imperador sentindo-se militarmente impotente para debelar a revolta comandada por Mathuzianye, viu-se obrigado a solicitar o apoio militar português. Como recompensa, o Muenemutapa reinante prometeu em 1607 a concessão aos portugueses de todas minas do estado.
Com a morte de Lucere, em 1627, o imperador Capranzina que representava uma facção oposta aos interesses mercantis portugueses foi deposto e substituído por seu Tio Mavura. Os portugueses baptizaram Mavura pelo nome de Filipe. O processo do comprometimento do novo imperador culminou com a assinatura no mesmo ano (1629) do tratado, designado por tratado de Mavura que transformou o império num estado vassalo de Portugal. Por este tratado, a aristocracia de Muenemutapa ficou obrigada a:
Permitir a livre circulação de homens e mercadorias isentas de qualquer tributo; A obrigatoriedade de o Muenemutapa consultar o capitão português antes de tomar qualquer decisão importante; Não exigir aos funcionários e mercadores portugueses a observância das regras protocolares quando recebidos por autoridades e altos dignatários da corte (descalçar os sapatos, tirar o chapéu, bater palmas, ajoelhar); Não obrigar os mercadores portugueses a pagarem impostos inerentes a sua actividade; Aceitar uma força constituída por 50 soldados portugueses na corte; Expulsar os mercadores asiáticos do império; Permitir a construção de igrejas no território.
O imperador com o tratado de vassalagem deixou de representar e executar a vontade dos antepassados para agir como um simples intermediário entre os interesses do capital mercantil português e as comunidades aldeãs. Os camponeses das mushas eram obrigados a trabalharem mais tempo na mineração do ouro em prejuízo da agricultura. A fome, as epidemias, a morte de mulheres e crianças nas minas passaram a caracterizar a sociedade Shona.
O fim da presença portuguesa no império de Muenemutapa deu-se em 1693 quando Changamire Dombo, chefe de Bútua levou a cabo a uma expedição militar contra os portugueses, tendo em dois anos expulsado os portugueses e obrigando-os a atravessar o rio Zambeze e se fixarem na margem esquerda, marcando assim o fim da fase do ouro e início da fase de marfim.
Causas da decadência do império de Mwenemutapa
Fixação dos mercadores portugueses na costa; Lutas pela sucessão; Falta de um exército permanente; A interferência dos estrangeiros, sobretudo dos portugueses nos assuntos internos do estado; Invasão dos Ngunis; Alianças dos sucessores dos Mwenemutapa reinante aos portugueses
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