Estórias Abensonhadas [Resumo] – Mia Couto

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Em declaração, Clarice Lispector já chegou a afirmar que em sua adolescência, sem repertório crítico que lhe direcionasse leituras, escolhia ao acaso os livros para a ler, de acordo com os títulos que lhe despertavam curiosidade. Eu como um adepto das simples verdades, acredito no ditado popular de que não se deve jugar um livo só pela capa; por outro lado, contudo, acho sim que devemos  começar seus julgamentos, já pelos títulos e a impressão que estes nos causam.

Quantas vezes, assim como a escritora brasileira, me peguei, escolhendo os livros sem informações nenhuma deles ou de seus autores, guiado, unicamente pela estranheza que seus títulos me causavam. Um título bem pensado e bem elaborado é de extrema importância para mim.

Não quero adentrar por demais no conceito formalista do estranhamento, mas tenho que, pelo menos, dizer o quanto de encanto e impacto me causou a aglutinação dos termos estórias, benção e sonho, do título deste volume de contos… Sei que a operação parece simples : abençoada + sonhadas = abensonhadas. É todavia, na simplicidade e na aparente ausência de sofisticação que reside a singela beleza das estórias desse livro. Sobre o título ainda, a adoção do termo “estória” ao invés  de “histórias” ressalta o valor estético do narrativo e do conto popular, e estabelece já de início, uma perspectiva intertextual com o autor brasileiro João Guimarães Rosa.

Publicado em 1994, com exceção de algumas estórias, (abaixo sinalizadas com asterisco)  o livro é na verdade uma reunião de estórias publicadas originalmente no Jornal Público. Não se engane quem achar que pela quantidade de estórias o livro seja um grosso volume, que demande um tempo grande de leitura. As estórias são curtíssimas e a leitura é fluída:

Nas águas do tempo

As flores de Novidade *

O cego Estrelinho *

Na esteira do parto

O perfume *

O calcanhar de Virigílio *

Chuva: a abensonhada

O cachimbo de Felizbento *

O poente da bandeira

Noventa e três

Jorojão vai embalando lembranças

Pranto de coqueiro

No rio, além da curva

O abraço da serpente

Sapatos de tacão alto

Os infelizes cálculos da felicidade

Joãotónio, no enquanto

Os olhos fechados do diabo do advogado

A guerra dos palhaços *

Lenda de Namarói *

A velha engolida pela pedra

O bebedor do tempo *

O padre surdo *

O adivinhador das mortes *

O adeus da sombra *

A praça dos deuses

Como em outros momentos e resenhas, ainda muito voltarei ao universo de Mia Couto, quero dar enfase nesse momento à questão do acima já mencionado, intertexto. Se com o título já se sugere uma relação de parentesco estético entre Mia Couto e Guimarães Rosa… Ler as duas primeiras estórias, serão suficientes, para acabar por estabelecer a concretude dessa relação. Sei que essa relação intertextual entre Mia e Rosa já foi tantas vezes referida, e até certo ponto desgastada, mas ainda assim desejo (re)fazê-la.

Pois se de modo geral podemos encontrar paralelo na escrita e no tratamento da palavra, nas duas primeiras estórias desse volume de contos o que o leitor vai encontrar é um intertexto narrativo delas com (respectivamente) “A terceira Margem do Rio” e “A Menina de Lá”.

Não falarei especificamente de cada uma das narrativas, pois os enredos, temas e assuntos são da ordem dos mais variados, unidos unicamente pela poesia da narrativa, e pelo valor mágico da palavra: Em “O Calcanhar de Virgílio” temos a história de uma mulher que se sente incumbida de continuar os trabalhos do marido alcoólatra ela própria bebendo todas depois que o marido morreu; Em “Noventa e Três” temos o retrato de uma insólita amizade entre um velho, um garoto de rua e um gato;

Em Sapatos de Tacão alto temos a história de um másculo homem que toda noite se traveste de mulher para matar as saudades da mulher; Em “A Guerra dos Palhaço” uma profunda fábula sobre os desmandos dos governantes e a manipulação de massa”.

Para terminar, resta dizer apenas que recomendo muito a leitura desse volume; se no entanto, você não quiser dar a mínima importância a minha opinião, sinta-se livre para não lê-lo. Se, contudo, assim como eu e Clarice, você tiver a prática de escolher ao acaso seus títulos, espero que, caminhando pelas prateleiras, você acabe por tropeçar na poesia destas estórias abensonhadas.

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